20080922

III III

sabe-se lá o que há para lá do Sol.





um tipo dos correios vislumbrava uma miúda no autocarro e uma senhora, do lado de fora do autocarro, passeava o belo rabo bamboleante, na rua, com um Jesus estampado nas costas da t-shirt. os estrangeiros da vida esqueciam os nomes e as ruas. " não se vê um palmo do Tejo "
uma neblina sorrateira. rasteira. mil suspiros de fantasmas. a cidade era menos cinzenta, menos abafada, menos pegajosa. raios. procuro o fresco numa brisa que se deixe enganar, com a certeza de que me acenderá do sono mole.
clac em caramelo. passeia a minha maternidade. passeia o dinheiro em bolso alheio. passeia um cão. onde raio estão os gatos desta cidade? passeia a criancinha exigente. passeia o amor sob a forma de presente. passeiam milhares. bom... talvez não tantos. mas só porque admitem ser só um. e pés? quantos a palmilhar?
interrompo-me, merda, porque da varanda, uma velha suga uma nuvem passageira e cospe-me para cima. sou forçada a abrir o guarda-chuva imaginário e etc, etc. tenho um candeeiro na memória, esquecido em cima da cómoda do meu quarto. as pessoas olham-me nos olhos e eu tento sorrir. quando não olham eu digo disparates. cheira a canos e já disse que a minha maternidade se passeia por aí.
reviro a alma almofadada e descubro parte da minha paz numa maçã.
quando encontro o tempo, estou a caminho de casa, entre nuvens e pássaros e azul e vermelho e um jardim que se avista, onde tornaria a ir se assim o quisessem. e umas costas nuas. e pinheiros. mais nuvens. uma placa branca e supermercados. salto da escada e caminho ao som de pedacinhos de metal e encontro a rua mais simpática daqui, por onde gosto de passar. as pessoas que aqui vivem devem ser todas felizes, depois lembro-me que só duas familias é que vivem nessa rua. a melhor é a cor-de-rosa. o velhote passeia sempre de bicicleta e sorri sempre. às vezes as pessoas esquecem-se de sorrir, é uma tristeza. infinita. e cíclica. o baloiço que ofereceram ao meu irmão envelheceu e está triste. viver não pode ser assim tão solitário. culpo as grades. e arame farpado. os muros e as redes. esta casa está morta. parece-me. cheira a canos. abro as janelas. troco a água. procuro o sol.
procuro o sol mesmo quando anoitece. procuro o sol quando já não sei o que fazer. procuro o sol quando não quero fazer. procuro o sol quando se enche uma nuvem negra no meu peito. procuro o sol. continuo sempre a espreitá-lo. procuro-o. procuro desesperadamente o sol. porque ainda que os olhos se comovam solitariamente, em todo o lado encontro partículas de vida.

e parte da vida aterra em mim, enquanto vivo.





1 comentário:

Sr. Jeremias disse...

há dias em que o sol tarda tanto tanto.

(aqui há um ligeiro cheiro a mofo vindo do corredor, sei que se abrir as janelas do lado de lá talvez ele desapareça. mas não me apetece ir abri-las. talvez porque com a porta bem fechada o cheiro nao entra.

vi hoje três gatos na rua, todos pardos, talvez por ser noite)

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