e no meio das conversas de 4 personagens no autocarro a discutir o estado da vida, a vida e o Estado, grunhindo que a merda está em não nos mexermos, que a merda está nos dirigentes escolhidos, que a merda está na economia global, que a merda está nos hábitos, que a merda está cá dentro e lá fora, sem saberem que estamos todos dentro e fora de coisa alguma, que a merda é também uma abstracção vazia de sentido para a qual caminhamos a passos largos, porque, enfim, é uma merda, porque o silêncio termina em cada uma das suas frases durante a longa/curta viagem de autocarro para casa; um engraçadinho dos seus 30 anos que ia começar a dizer que "as pessoas falam do Salazar, mas", à cata de solução, e o outro a responder que "mas havia miséria, só via o meu pai ao Domigo e as refeições eram à base pão... " e o outro a dizer que "Os Portugueses têm memória curta, até porque o Cavaco é Presidente, mesmo depois de se ter apertado o cinto e ter mandado dar paulada" [e a rapariguinha lá atrás, absorta, calada; e a mulher lá à frente a repetir "é verdade sim sr. e a mim ainda não me pagaram o ordenado sequer, só o subsidio de Natal. isto é uma miséria." e a miúda a torcer-se]; e depois, estragaram tudo quando ainda não tinham começado a falar a sério, com a conversa de que eram precisos polícias mais tiranos e pena de morte. e no meio disto tudo, a vida é curta. e no meio disto tudo a passagem por aqui e de lá até casa é uma eternidade. e no meio das conversas de 4 personagens, a ´miúda lá atrás a pensar que inicialmente lhe apetecia cantarolar-lhes, num sorriso, "F.M.I" e que saiu agoniada, passo apressado no chão de terra batida entre os pinheiros, a pensar "oh the times, they are a changin'" e culpou-se por cantar fosse em que língua fosse o que quer que seja, de quem for.
para ir estudar Finanças Públicas e pensar que tudo isto é, ainda assim, uma grande merda. e isso é apenas um grande nada para se dizer acerca do tudo.
20100111
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3 comentários:
Sentar na frente permite ouvir a brejeirice pública, sem ter que manter um olhar fugidio e desfocado pois podes olhar para o tacómetro do motorista.
Além disso, o 42 torna-se manifestamente mais divertido a partir da Duque D'Ávila.
recorrente. o cenário. as palavras. a raiva...
Já sei, conheço esse autocarro,
sabes que não é dos piores,
e em todo o caso, detém-se um certo controlo.
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