20110327

mas afinal que horas são se no sol e' sempre agora?

Gente-coelho:

o movimento entre ir e voltar, chegar e partir, o momento em que dois momentos divagantes, num impulso interior e individual, se encontram numa unidade criativa de algo que acaba por não se finalizar.

Gente-Gato:
espreguiçam-se docemente em belos tapetes, sem lhes interessar o material que os compõe, ao sol.
Ha' que o fazer antes que caia a noite.



Gente-bicho:
sem falar.


(Gente-humana:
a tentar equilibrar o balance' para que não penda demais para apenas um dos lados.)



20110209


oh brother,
today I saw the shades of daffodil and indigo announcing springtime in the woods,
what a beating joy!

20110202

fazer de conta.
sem que me apeceba, a memória vai deixar que tudo se vá embora, céus, calçadas, barcos, risos, prédios tristes, campainhas, noites, lençóis, dias, amuos chorosos, bandejas de plástico cinzentas e sofás & televisões entretidas com copos de vidro baixos com cerveja até acima. demasiados detalhes para serem cuspidos aqui, neste agora.
mas escuta, amansa, sem dares por isso os deuses estrelados sob a minha cabeça vão abençoar os teus passos apenas porque lhes sussurro.
Há uma necessidade gigante de abrir as janelas todas para deixar a casa respirar, apenas hoje.
Amanhã logo se vê. Amanhã voltarão caminhadas incertas, ídolos de pedra em ilhas desconhecidas, mascarilhas prateadas a fazer de tiaras, venenos a ser engolidos em celebrações, cabelos compridos, cortados, o tamanho das bainhas, as revoltas no mundo e o conforto dos sapatos como temas principais. pinceladas à parte, as palavras custam a sair. Antes de dar por isso sei que vou fumar cigarros imaginários neste telhado contigo e dizer-te que prometo que todas as vezes que aquelas páginas me vierem bater à porta vou querer pegar fogo aos muros e gritar. Gritar não sei bem o quê.
Mas creio que não importa. Tenho demasiadas eternidades para as palavras.
Os dois pés descalços, roçando um no outro, e a certeza de que o abandono se vai, para outro lugar qualquer. e desejar, por uma vez na vida, saber já tocar piano para me poder cruzar na rua contigo.
um dia destes.

20110123

(estúpida adolescência que aparece sem pedir "dá licença?" a um domingo)



" a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos

e qualquer outra estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete. "


Alice Vieira - Pelas Mãos e Pelos Olhos Eu Juro











©


20101111

(Fotografia de Joaquim Pereira, o avô-mito)



(um rumo com sépias à mistura.)


primeiro era o Caos.

paralelismo da realidade e do sonho. circular, sem intersecções, o interior e o exterior sem se cruzarem. o medo. o medo resume-se ao oposto das direcções. sentava-se nos períodos cigarris, com um compasso, um esquadro e uma régua. traçava destinos, dificultava as soluções com as fórmulas, os esquemas cinzentos e sem transparência, linhas que perfuravam os cortinados de névoa. a floresta em silêncio. as raízes pulsando da terra.

-Quero chegar ao âmago. quero ser mais que o vento nos cabelos. quero saber para onde vou.

a raíz a diluir as geometrias.
pegadas suaves e dançadas.
os gatos sorriem na berma das estradas.
mantos cosidos com retalhos de recordações, embrulham as visões.
sentam-se em poltronas vermelhas e abrem as mãos, deixando cair o baralho sobre as mesas de jogo.
os companheiros de crime a elevarem os ombros, apoios de mãos para as cabeças que espreitam o preço de flautas de pã.
jejuns & fumo em cornucópias.
gente que se perde na floresta e rapidamente se encontra.
gente que se encontra na cidade e rapidamente se perde.
e cronologicamente falando, diziam não saber por onde começar se as penas ardiam repetidamente consoante a posição da lua.
fadados à loucura.

mas houve silêncio.

e duas aves cruzaram o vôo a dois passos do peito do meu caminhar. bastou.




-que fazes tu, agora?
-fujo dos dias que não existem.

20101020

para os peritos em complicações





Don't imagine," Mrs. Narayan resumed, "that this is the only kind of dancing we teach. Redirecting the power generated by bad feelings is important. But equally important is directing good feelings and right knowledge into expression. Expressive movements, in this case, expressive gesture.

"It's meditation in action," she concluded.


*

20101007



"Proud music of the storm,
Blast that careers so free, whistling across the prairies,
Strong hum of forest tree-tops--wind of the mountains,
Personified dim shapes--you hidden orchestras,
You serenades of phantoms with instruments alert,
Blending with Nature's rhythmus all the tongues of nations;
You chords left as by vast composers--you choruses,
You formless, free, religious dances--you from the Orient,
You undertone of rivers, roar of pouring cataracts,
You sounds from distant guns with galloping cavalry,
Echoes of camps with all the different bugle-calls,
Trooping tumultuous, filling the midnight late, bending me powerless,
Entering my lonesome slumber-chamber, why have you seiz'd me? "

(beloved Walt Whitman)



( sapatos perdidos, descalços os pés. sentados em templos de pinheiros feudais as veias do mundo a abrirem as portas. o pião não gira na terra batida. onde estamos? qualquer direcção caminhante, até à janela de chuva. entre cigarros e cancros histéricos de riso. sentado, respira e diz que no fundo do teu belo, negro, assustador poço se encontram fadas, duendes, ninfas e musas, relíquias de tempos idos e porvir, todas as histórias de encantar. lá fora a sinfonia de um vendaval eleva-se sobre o mundo atapetado de pedras preciosas, enquanto os gatos brincam no abrigo do telheiro feito sótão)

20100903

sidus

sobe a escada de madeira, feita estante dos livros do pai, ali de pé descalço, junto a palavras paginadas, manuais de construção. baixa a cabeça, para não a cabecear no tecto oblíquo e dirige-se até à cortina esverdeada que deixa passar aquela luz matinal, que nos serve de primeira pele, para espreguiçar a alma. desliza-a com uma mão. e vai de respirar o quadro de árvores que lhe sorriem. café com canela, numa caneca ainda de pijama às riscas. pássaros que acordam, que não dormiram, que não têm horário para trinar. flores que não se fecham nunca à noite. as telhas manchadas de colónias brancas e esverdeadas. o sol a tostar o nariz. uma leve brisa, puxa do lenço-manta que roubou à avó louca e sorri. para percorrer os percursos todos da casa.

(um segredo: uma ametista a apanhar sol no parapeito florido do quarto-nave)

tempos em que os gritos se diluem na música que se escolhe, ou nos ecos da madeira que range debaixo dos pés, no corredor. a luz a variar em cada divisão, cortar legumes e fruta, retirar as folhas-tempero dos vasos, ou mordiscar bolachas numa rede amarela, com livros claros no colo, pendurada entre duas laranjeiras. toda a infância a sair de uma garagem, enquanto a cadela negra mansa nos rodeia & o gato Alice mia apenas por miar, isto fica, isto não, quero ir vender na feira-da-ladra, mas Catarina não vês que está podre, partido, debilitado, pronto para ser desfeito, não tenho paciência para te ouvir falar nisso, vai mas é para o lixo e fica só a minha colecção gigante de banda-desenhada, mas não faz mal, porque ainda vamos sorrindo e se encolhe os ombros mesmo quando fazem por não nos estar a ouvir de coração. e batalhas para quê? uma pessoa afasta-se, puxa do vicio nefasto do cigarro e dilui tudo no fumo, volta a si, e deixa de agredir, não entra mais nessa cumplicidade mortal que os velhos carregam, retoma o sorriso nos olhos e tenta falar a sua verdade da forma mais simples, sem grandes discursos, sem princípios aritméticos, lógicas kantianas, ou coisa que o valha, para sorrir com os olhos, dizer: esta aqui sou eu. também filha do sol, já dizia o povo que o sol quando nasce é para todos.
vou armazenando parte do alimento no meu plexo, contruindo a pirâmide com as mãos, agora que já me ensinaram, ou só olhando de frente, como a intuição me mostrou. e depois, depois, os obstáculos são para ser enfrentados de costas direitas e paciências várias. um constante aperfeiçoamento a erguer o porvir mais solarengo que se conseguir. a magia está em todo o lado a todo o momento, basta limpar os olhos com as duas mãos e beijar os ombros, acompanhar o vôo das aves, e as tonalidades do mundo, o brilho nas manhãs, tardes & noites, a sinfonia foi feita para ser sentida e para se sorrir com ela.
é simples.
basta não complicar.

20100725



peito aberto, a imensidão & cada partícula no seu exacto lugar, sem que tenha que dar por isso.
as lágrimas abrem caminho ao sorriso.
rendo-me.

20100628

*sigh*

( à beira-rio, com fundo morno, esfiapado de baunilhas e violetas)

-então e que é que queres fazer da vida?

-quero não ter que saber o que fazer da vida.

(joelhos encostados ao peito & o vôo lento de algumas aves arrastadas por uma breve brisa cor de nada)

20100622

20100510

querido amor que um dia foste,

na cidade dos fantasmas tudo está morto.
acho que os gatos descobrem a lua, apenas porque sentem o seu reflexo no brilho dos bigodes. uma outra variedade de luzes embate na rigidez dos bigodes de um gato de olhos mais enigmáticos que o habitual. são frios.
havia tanta coisa para dizer, ninguém quer saber, não querem saber falar do que sentem. todos têm medo. bem sei. lembras-te? tu também tinhas. eu de falar, apenas, quando me esquecia que era natural sentir e tinha medo do que era. agora, em redor, todos os que deambulam me parecem encerrados. mais ou menos.
no nada, as torradas são barradas com 4 sabores diferentes, mel, marmelo, morango e amoras. os ritmos saltam entre cada poro para uma vibrante agitação quotidiana, confesso que não é assim tão dificíl acostumar-me ao sorriso. o pó, na água, a dar a cor esbranquiçada. leite de pacote. quantas pessoas já beberam natas de uma vaca? jesus. vomitava com 6 anos essa mixórdia de chocolate natado que o meu pai queria que bebesse nos recreios.
depois cresci.
ai.
nunca cresci nada. sou exactamente do mesmo tamanho, apenas me disseram para ser mais adulta. continuei a imaginar os meus castelos e a destruí-los para construir outros à socapa da opinião alheia. fiz-me forte, fiz-me doce. não quis julgar e assim julguei toda a gente como o bicho-macaco igual a tantos outros que há.
ajoelhei-me perante todos os santos até me sentar no trono de deus. fora de mim, não entendi quem era. dentro de mim, achei que não tinha que saber. faz-te algum sentido?
escrevo assim directamente para ti, que não existes, nem existirás mais sem ser no sonho imaginado. atira a primeira pedra. deixa que seja branca como a do alucinado. caminha de mãos dadas comigo um bocadinho, esta noite.
hei-de lamber a canela das peles, tantas e quantas vezes quiser até recortar os quadros possíveis de qualquer janela para um pedaço de cartão. canetas, tintas, lápis, dá-me cor, luz, as sombras dos espaços, uma máquina fotográfica e uma máquina de escrever.
aos pés da cama, fantasio com um chapéu negro com penas turquesas, é que as máscaras agradam. toda a gente se contenta com a expressão de qualquer lugar. (desde que caiba num espaço interior e se troque por um valor qualquer)
será que alguma vez a procissão de velas a arder e gente em burburinho, enquanto bebíamos cerveja, ficará na tua memória?
repara, não quero cobrar absolutamente, e de resto a paixão nem me corre nas veias, apenas queria saber. porque o sorriso dos gatos acende-se assim e o vizinho da frente conserva uma árvore de natal enfeitada em plena primavera. são estas as coisas a partilhar. retirem as maçãs das árvores.
que cada ventre as guarde. em flor.
sem caroços.
podias ter gritado comigo? para o raio que o parta.

não sei se entendo as palavras. pôrra. não sei se escrevendo para lá do suposto e conveniente me deixo ser mais que um macaco com a razão num bolso e o coração a forrar-me o que acho ser. daqueles que sabem sangrar. descobri o amor em cada esquina, sabias?
e não. não entendo Lisboa, nem falta me faz. mas, pôrra, é tão bela a cidade suja, feia e incompreensível.
sussura a voz que deve ser dos fados, dos pássaros nas pequenas quietudes, dos beijos&abraços e das luzes.
das luzes!

20100419



eu quero que o meu caixão,
tenha uma forma bizarra,
a forma de um coração,
a forma de uma guitarra.





20100412

20100408


cittagazze

20100401

" there was never any more inception than there is now,
Nor any more youth or age than there is now;
and will never be any more perfection than there is now,
Nor any more heaven or hell than there is now.

Urge and urge,
Always the procreant urge of the world."


Walt Whitman

20100309

não sei muito bem, nunca soube.
os dramas diários convertidos em apatia total são uma forma de paz de espírito. não deixa de ser impossível atravessar a cidade, ouvindo queixas, cheirando fedores e espreitando para dentro dos olhos de estranhos e estranhas, sem comoção. assim como respirar a terra batida dos caminhos.
não, olha, não quero estar para aqui, neste espaço vazio, onde os ecos imperam, não, vou escolher encolher os ombros ao tudo-nada da existência e vou falar com os melros e com os gatos.
entendes? a cambada de malandros, sacanas e filhos-da-puta sou eu, és também tu e o gajo que te sorri, ou o velho-novo que se senta ao teu lado no autocarro, metro, nave-espacial, é o mesmo tipo que leva a criança, pela mão, na rua e a velhota com as compras em sacos de plástico .
não sei se quero olhar sempre para o chão, não me apetece olhar para o céu constantemente. as janelas da cidade escondem, atrás dos cortinados sujos e gastos, pequenos tudos&nadas. não, não vou falar das entranhas dos prédios, não vou falar das sombras gigantes que projectamos nas paredes quando fumamos um cigarro no parapeito, nem nos desenhos da calçada quando vistos de cima (tapetes de pedra), nem nas janelas fechadas dos transportes públicos, nem no cheiro dos livros que se desfazem nas mãos e que deixam as mãos ásperas. não quero dizer absolutamente nada. não quero entender porque raio o sangue é bombeado na direcção do amor. não me vou debruçar sobre o romantismo, nem pensar em tomar uma postura saudosa dos dias mortos.
a porta do quarto fechada, os ecos da memória da minha avó feitos palavra, sempre a debicar migalhas de tempos cor de sépia. não sei o que vem, não sei pensar na dimensão do universo nem entender o valor de pedaços redondos de metal, não sei se chegamos a escutar claramente além das paredes, quando a rotina se instala.
não sei se a estabilidade é um fato de aluguer ou uma boa refeição.
não sei porque é que os bichos têm memória para inventar a história.
não sei apreciar a beleza de um átomo isolado.

não entendo nada. nem o olhar assustado, no outro lado do espelho, quando a máscara cai.
nem porque raio existem sombras de constelações no tecto de um quarto onde existe uma santa, um lenine em miniatura e um cinzeiro com uma virgem.



sei que o insubstituível, no ermo da memória, tem fundo de céu, esfiapado a violetas e baunilhas, onde a luz alvorece suavemente. e ainda que nenúfares e orquídeas existam, a violência fria do silêncio é o que tende a permanecer no promontório nocturno dos invernos. e que ainda assim a distância criada advém de lembranças (ou vice-versa?) e que o seu tamanho ilusório a nada se compara com o magno, enublado, "há-de vir".


20100302

7.

"mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar."