querido amor que um dia foste,
na cidade dos fantasmas tudo está morto.
acho que os gatos descobrem a lua, apenas porque sentem o seu reflexo no brilho dos bigodes. uma outra variedade de luzes embate na rigidez dos bigodes de um gato de olhos mais enigmáticos que o habitual. são frios.
havia tanta coisa para dizer, ninguém quer saber, não querem saber falar do que sentem. todos têm medo. bem sei. lembras-te? tu também tinhas. eu de falar, apenas, quando me esquecia que era natural sentir e tinha medo do que era. agora, em redor, todos os que deambulam me parecem encerrados. mais ou menos.
no nada, as torradas são barradas com 4 sabores diferentes, mel, marmelo, morango e amoras. os ritmos saltam entre cada poro para uma vibrante agitação quotidiana, confesso que não é assim tão dificíl acostumar-me ao sorriso. o pó, na água, a dar a cor esbranquiçada. leite de pacote. quantas pessoas já beberam natas de uma vaca? jesus. vomitava com 6 anos essa mixórdia de chocolate natado que o meu pai queria que bebesse nos recreios.
depois cresci.
ai.
nunca cresci nada. sou exactamente do mesmo tamanho, apenas me disseram para ser mais adulta. continuei a imaginar os meus castelos e a destruí-los para construir outros à socapa da opinião alheia. fiz-me forte, fiz-me doce. não quis julgar e assim julguei toda a gente como o bicho-macaco igual a tantos outros que há.
ajoelhei-me perante todos os santos até me sentar no trono de deus. fora de mim, não entendi quem era. dentro de mim, achei que não tinha que saber. faz-te algum sentido?
escrevo assim directamente para ti, que não existes, nem existirás mais sem ser no sonho imaginado. atira a primeira pedra. deixa que seja branca como a do alucinado. caminha de mãos dadas comigo um bocadinho, esta noite.
hei-de lamber a canela das peles, tantas e quantas vezes quiser até recortar os quadros possíveis de qualquer janela para um pedaço de cartão. canetas, tintas, lápis, dá-me cor, luz, as sombras dos espaços, uma máquina fotográfica e uma máquina de escrever.
aos pés da cama, fantasio com um chapéu negro com penas turquesas, é que as máscaras agradam. toda a gente se contenta com a expressão de qualquer lugar. (desde que caiba num espaço interior e se troque por um valor qualquer)
será que alguma vez a procissão de velas a arder e gente em burburinho, enquanto bebíamos cerveja, ficará na tua memória?
repara, não quero cobrar absolutamente, e de resto a paixão nem me corre nas veias, apenas queria saber. porque o sorriso dos gatos acende-se assim e o vizinho da frente conserva uma árvore de natal enfeitada em plena primavera. são estas as coisas a partilhar. retirem as maçãs das árvores.
que cada ventre as guarde. em flor.
sem caroços.
podias ter gritado comigo? para o raio que o parta.
não sei se entendo as palavras. pôrra. não sei se escrevendo para lá do suposto e conveniente me deixo ser mais que um macaco com a razão num bolso e o coração a forrar-me o que acho ser. daqueles que sabem sangrar. descobri o amor em cada esquina, sabias?
e não. não entendo Lisboa, nem falta me faz. mas, pôrra, é tão bela a cidade suja, feia e incompreensível.
sussura a voz que deve ser dos fados, dos pássaros nas pequenas quietudes, dos beijos&abraços e das luzes.
das luzes!