Lembras-te?
a minha vida faz-de-conta cuspia outras vidas para folhas, a murro com o chão.
sorrio porque tudo isso se foi. ou julgo que tenha ido.
resta-me a ausência dos que ficaram e as insónias.
a única dor que me ficou foi a minha e guardei-a para lhe fazer festinhas de tempos a tempos.
quando espreita pela frincha é só mais uma treta balbuciada.
isso não me cansa e entretenho-me, muitas vezes, a lutar com os cacos da memória para conseguir esborratar o sorriso mudo mais azul que tenho (no mesmo fim, sim). quando o cosmo não me vale, eles acodem-me em noites de paranóia e tremem-me a cama para que saiba que lá estão, elevam-me do corpo e abanam-me a mente com mensagens confusas que no dia seguinte farão todo o sentido. para me salvar - entendes, isto?
-não.
(eu explico. faço-te um desenho. faço mímica. mas tens que estar atento. 22 gatos num disco voador a descer de qualquer sonho. observam-me à volta da cama e arranham os meus pensamentos desnecessários, para que se libertem alguns coágulos passageiros, que não sei rebentar. não me querem mal, apesar de caminharem em duas patas e sorrirem com os olhos ao contrário. apesar de serem assustadores. ensinaram-me que as ideias caminham no mesmo deserto estrelado.
-não. não compreendo. )
ouve a cavidade em luz, com atenção. por favor.
depois, se te apetecer, podes morrer descansada.
todas e quantas vezes quiseres.

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