20081010

III III I

aterrar no chão é cada vez mais suave.


a habituação ao cheiro e um filho da puta qualquer, sorridente, entretem-te com malabarismos e tu decides que puxar-lhe o tapete é o melhor a fazer. a sala de espera é enfadonha. então espreita-se pela porta e a queda abre-se enquanto se perde a merda do equilíbrio.
enquanto me desiquilibro.
isto é muito azul aqui. sempre foi, mas agora acho mais. de quando em vez lá me cruzo com a Alice e pergunto-lhe o que é que achas tu do livro mas a gaja é muda. m u d a. está vento e as árvores estão agarradinhas à terra e os pássaros agarradinhos aos ninhos e deus agarradinho ao sol e o mês está a ser muito comprido e vai ser mais ainda e provavelmente irá confundir-se com o mês seguinte e com o outro. e quando der por mim vou estar velha e sozinha com chávenas fumegantes na mão e o coração envidraçado.
é claro que especulo. é claro que tenho que dramatizar um pouco.
não entendo esta propensão para a solidão. são todos assim tão estúpidos ou é mesmo a vocação a falar mais alto? e deus disse-lhes entre os raios luminosos: enfiem-se no vosso claustro sombrio e abandonado para apodrecerem como camélias.
eu sei lá o que diz deus. costumava dizer que era deus. agora já não acho pôrra nenhuma. nem quero achar. sou precoce nas minhas ambições.
os sonhos aparecem-me muito palpaveis e confundem-se com recordações. a minha cama é demasiado confortável para se chorar, então a baba escorre-me pelo canto da boca enquanto olho para a Europa numa parede. o meu professor diz que ela não existe. eu gostava de chegar a essa conclusão sem que me lavassem a cabeça. não há nada de errado em andar-se com o cabelo sujo.
abro os olhos. a parede consome-me no branco e eu mastigo-lhe a tinta. um querubim vem fazer-me festas na cabeça e eu enxoto-o porque é uma criatura tão simpática quanto um mosquito. mas as suas asinhas fritas são um belo snack.

o meu escudo cai.

sou uma menina perdida na cidade. e para onde quer que me volte as caras são buracos negros. as ruas cheiram mal e estão sujas. ainda vejo um abraço no outro lado do rio, mas passo sempre ao lado porque o autocarro teima em não parar. bato nos vidros da janela mas não me ouvem porque o som está todo lá fora. tudo se enche de água e eu esvazio-me e flutuo até ao umbigo da criação.

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