-até os astros se enganam.
rodopiante, fura-se a atmosfera. rebenta-se em fogo. arde-se até diminuir. fica-se em lume brando. aterra-se.
"supernovas no umbigo", dizia-me um amigo. e eu peguei no texto e colei-o na parede do quarto, agora querem que descole tudo porque vão pintar as paredes. outra vez. querem pintar tudo o que lá escrevi. é uma chatice.
amanhece.
e os gatos continuam na sombra, à espera que lhes desenhem os bigodes. regurgito o coração e acordo de um sono profundo; sonho com mãos que se dão a mãos que não se querem dar. tenho palavras na cabeça, o coração na boca e olhos de bicho. o chão é o meu melhor amigo. o chão é cada vez mais suave, já disse. entretanto, electrocutam o desejo dos sonhadores das madrugadas. é mentira, porque escrevem às quatro da manhã e a essa hora a luz do sol ainda não se veio na estúpida paisagem das árvores. continuam a ser sombras chinesas. e depois, olha, é fodido ser assim, mas lá terás de enfiar as memórias no lixo, porque pá, tu entendes, é melhor p'ra ti. não é?
é...?
vinte e quatro horas rolam sobre vinte e quatro horas e aqueles três filhos da puta continuam engaiolados e a mãe a dar-lhes papinhas de leite ou qualquer coisa, ou morreram à fome porque ela também morreu de hepatite. qual delas não sei, mas espero que não tenha sido a C.
chorei quando os vi nas nuvens. mas eles não me levam lá p'ra cima, porque quando voava só podia não tocar no chão. o céu mel e tu não. tu nunca.
um papai Noel grávido de presentes, veste-se de cinzento e diverte velhas senis no Lar da minha tia. caramba, elas não estão senis e cantam em conjunto. apanha-me a cara a jeito com as mãos ossudas, as veias marcadas. depois diz que não sabe quantos anos faz e pronto. as pessoas bonitas levam pontapés, mas não as sei distinguir, dizem-me que tenho mau gosto e limito-me a fungar e a afastar a franja com a tesoura. depois há um tipo qualquer que se afunda num lago gelado e nada até uma sereia maneta. congelam a meio do sono. a virtude e a providência, a fortuna e a integridade, tout les mots pour choisir le chemin. mas já não falo em lálálás. é uma sorte cicatrizar rapidamente. mas é uma tristeza esgotar o que se é. e depois, não me viste assim tantas vezes de vestido. as bonecas que se apertam até alguém as escolher e, a meio de um pigarreio, alguém decide que a masturbação é, de facto, a melhor solução para as mãos solitárias.
uma bomba para rebentar de vez com a explosão de sentimentos. uma bomba de pensamentos. estalar a lingua e desactivar o coração. não há melhor que abrir as asas e ver o céu, mas há sempre o chão, o chão, o chão, o chão. não há sombras porque em vez de árvores plantam prédios-colmeias, e o mel vai todinho para eles. e depois isso já não me interessa muito e é uma chatice porque nesta altura do campeonato, até dava jeito. mas o Sócrates está morto e que é que queres, as mulheres continuam caladas. e revolvo-me e perco-me e tu estás ali do outro lado e eu não te toco porque fazes parte deles e puseste-te entre arame farpado e granadas e se sou só não quero estar desse lado assim. e ninguém entende uma palavra do que eu digo e fecho as portas do coração e guardo o amor muito bem guardado, antes que me obriguem a pagar o IVA. e depois as saudades são uma chatice quando não se podem matar e já disse e volto a dizer, porque raio havia eu de nascer portuguesa, mas as estrelas não me respondem porque ainda não fui fumar um cigarro. e quero ver o sol com o (sur)real amigo imaginário. vê se atinas, mas não atino porque eu cá não sou dessas coisas das conveniências e a mim só me papam com suspiros que se ouçam. porque o que eu quero é que a vinte cinco d'abril caia e que o tejo arda e apagar do quadro as costas e os ténis azuis com atacadores vermelhos. mas não quero nada disso, porque ninguém quer matar o que é belo assim a tiro, mas há quem te fale em sapatilhas, não é verdade? eu sei lá o que raio é que é a verdade. movo-me. posso mover-me. eu consigo mover-me. corre-me nas veias. ainda sinto as veias.
foi sem querer.
20081020
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